📖Este artigo faz parte do guia completo sobre Terceiro Setor e Gestão Transparente de ONGs. Mais de 45% das Organizações da Sociedade Civil (OSCs) enfrentam desafios na administração de seus recursos financeiros, segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2026. Esse número revela uma realidade dura: sem uma gestão financeira sólida, até as causas mais nobres podem naufragar. Em minha experiência trabalhando com dezenas de OSCs em Anápolis e região, percebi que o principal gargalo não é a falta de recursos, mas a ausência de ferramentas e processos claros — especialmente o Demonstrativo de Resultados do Exercício (DRE).
Para um panorama completo sobre o tema, veja nosso guia sobre
Terceiro Setor e Gestão Transparente de ONGs.
O Que É o Demonstrativo de Resultados do Exercício (DRE)?
📚Definição
O DRE é um relatório contábil que resume as receitas, custos e despesas de uma OSC em um período específico (geralmente um ano), apurando o resultado líquido — superávit ou déficit.
O DRE é a ferramenta mais poderosa para entender se sua organização está gastando mais do que arrecada. Diferente do balanço patrimonial, que mostra o que a OSC possui e deve em uma data fixa, o DRE revela o desempenho operacional ao longo do tempo. Ele responde a perguntas essenciais: "De onde veio o dinheiro?", "Para onde foi?" e "Sobrou ou faltou?"
Na prática, o DRE de uma OSC segue uma estrutura enxuta:
- Receitas operacionais: doações, subvenções públicas, convênios, vendas de produtos/serviços, rendas de aluguel.
- Deduções da receita: impostos sobre vendas, devoluções, descontos concedidos.
- Receita líquida: o que efetivamente entra no caixa.
- Custos dos serviços prestados: salários da equipe técnica, materiais pedagógicos, aluguel do espaço onde o projeto ocorre.
- Despesas operacionais: administrativas (contabilidade, luz, água), comerciais (captação de recursos) e financeiras (juros bancários).
- Resultado antes das doações e subvenções: indicador da eficiência operacional.
- Doações e subvenções recebidas: itens que não passam pela operação direta, como legados.
- Resultado líquido do exercício: superávit (positivo) ou déficit (negativo).
A correta elaboração do DRE é pré-requisito para obter certificações como o
Selo Doar A, que atesta transparência e boa gestão — algo que diferencia sua OSC na hora de captar recursos.
Por Que o DRE É Importante para Sustentabilidade Financeira?
A gestão financeira de uma OSC não é apenas uma obrigação legal; é a base da confiança com doadores, parceiros e beneficiários. Uma pesquisa da McKinsey de 2025 indicou que organizações do terceiro setor com relatórios financeiros auditados têm 3,2 vezes mais chances de receber doações recorrentes. O DRE é o documento que permite essa auditoria.
Benefícios diretos do DRE para sua OSC:
- Transparência: Doadores querem ver exatamente como seus recursos foram aplicados. Um DRE claro e acessível no site da OSC aumenta a credibilidade.
- Tomada de decisão: Com o DRE em mãos, a diretoria pode decidir cortar desperdícios, redirecionar investimentos ou buscar novas fontes de receita.
- Prestação de contas: Órgãos públicos, editais e parcerias privadas exigem demonstrações contábeis. O DRE é o principal documento solicitado.
- Planejamento orçamentário: Comparando DREs de anos anteriores, você projeta receitas e despesas futuras com mais precisão.
- Atração de talentos: Organizações financeiramente saudáveis atraem voluntários e profissionais qualificados, que buscam estabilidade.
Segundo o Gartner, 78% dos gestores de OSCs afirmam que a falta de relatórios financeiros padronizados é a principal barreira para conseguir financiamento de grandes fundações. Ou seja: sem DRE, sua OSC fica invisível para oportunidades significativas.
Como Elaborar um DRE Eficiente Passo a Passo?
Elaborar um DRE não precisa ser um bicho de sete cabeças. Siga este roteiro prático que desenvolvi ao longo de anos assessorando OSCs em Anápolis:
Passo 1: Reúna todos os documentos financeiros do período
Separe extratos bancários, notas fiscais, recibos de doações, comprovantes de pagamento de salários e aluguéis. O ideal é ter um sistema de gestão financeira (como Conta Azul, Omie ou até uma planilha bem estruturada) que centralize essas informações.
Passo 2: Classifique cada movimentação
Toda entrada e saída deve ser categorizada: "doação de pessoa física", "subvenção municipal", "salário da coordenadora pedagógica", "material de escritório". Essa classificação é essencial para o DRE refletir a realidade.
Passo 3: Monte a estrutura do DRE
Use este modelo simplificado:
| Item | Valor (R$) |
|---|
| Receita Operacional Bruta | 100.000 |
| (-) Deduções e Impostos | (5.000) |
| Receita Operacional Líquida | 95.000 |
| (-) Custos dos Serviços | (40.000) |
| Resultado Bruto | 55.000 |
| (-) Despesas Operacionais | (30.000) |
| Resultado Antes das Doações | 25.000 |
| (+) Doações e Subvenções | 20.000 |
| Resultado Líquido do Exercício | 45.000 |
Passo 4: Calcule o resultado líquido
Subtraia todas as despesas e custos das receitas. Se o valor for positivo (superávit), parabéns — sua OSC gerou excedente. Se for negativo (déficit), é hora de agir.
Passo 5: Analise e aja
Não basta gerar o DRE e guardá-lo na gaveta. Compare com o orçamento planejado, identifique desvios e tome decisões. No Instituto Germminar, por exemplo, revisamos o DRE mensalmente para ajustar rotas — isso nos permite manter a transparência auditada e alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, especialmente os ODS 1 (Erradicação da Pobreza), 4 (Educação de Qualidade) e 10 (Redução das Desigualdades).
Confira também nosso guia sobre
Como Funciona o Reforço Escolar Gratuito em Anápolis para ver como uma OSC bem gerida pode maximizar seu impacto social.
Diferenças Entre DRE de OSC e de Empresa Lucrativa?
Muitos gestores do terceiro setor se confundem com as particularidades do DRE de uma OSC. As principais diferenças são:
| Aspecto | Empresa Lucrativa | OSC |
|---|
| Objetivo | Gerar lucro para acionistas | Gerar impacto social |
| Resultado | Lucro ou prejuízo | Superávit ou déficit |
| Tratamento de doações | Receita tributável | Isenções fiscais (quando certificada) |
| Obrigações acessórias | SPED, ECD | ECD, obrigações específicas do terceiro setor |
| Demonstração | DRE padrão | DRE adaptado com contas de doações e subvenções |
Na OSC, o superávit não é distribuído — deve ser reinvestido nos projetos sociais. O DRE precisa refletir essa lógica, separando claramente recursos captados para projetos específicos (normalmente com restrições de uso) dos recursos livres.
Erros Comuns na Gestão Financeira e Como Evitá-los?
Ponto-Chave: Os erros mais frequentes na gestão financeira de OSCs — como misturar contas pessoais e institucionais ou não fazer planejamento — podem ser evitados com processos simples e disciplina.
Baseado em casos reais que acompanhei, listo os 5 erros mais comuns:
1. Misturar contas pessoais e institucionais
Parece óbvio, mas muitas OSCs pequenas começam usando o CPF do fundador para receber doações. Isso gera uma confusão contábil enorme e compromete a transparência. Solução: abra uma conta jurídica desde o primeiro dia e nunca movimente recursos pessoais por ela.
2. Não separar projetos específicos
Quando uma OSC recebe recursos de um edital com finalidade específica (ex: reforma de biblioteca), esses valores não podem ser usados para pagar salários. Sem um DRE detalhado por projeto, você corre o risco de prestar contas erradas. Solução: crie centros de custo ou projetos no sistema financeiro.
3. Ignorar despesas indiretas
Aluguel, luz, internet e salários da equipe administrativa são despesas reais que precisam ser rateadas entre os projetos. Muitas OSCs subestimam esses custos e apresentam DREs irreais. Solução: rateie as despesas indiretas proporcionalmente ao tempo ou recursos de cada projeto.
4. Não atualizar o DRE mensalmente
Esperar o fim do ano para fazer o DRE é um erro grave. Você perde a capacidade de agir rapidamente quando algo sai do esperado. Solução: feche o DRE todo mês, mesmo que simplificado. Use a média de 12 meses para identificar tendências.
5. Falta de auditoria externa
Mesmo OSCs certificadas com o Selo Doar podem cometer erros sem uma auditoria independente. Uma pequena OSC de Anápolis que assessorei descobriu um desvio de R$ 12 mil em doações porque não auditava os extratos. Solução: contrate um contador especializado em terceiro setor e, se possível, faça auditoria anual.
Para aprofundar, veja nosso artigo sobre
Estatuto Social e Governança no Terceiro Setor — a governança sólida é a base de uma gestão financeira saudável.
Ferramentas e Tecnologias para Gestão Financeira de OSCs
A tecnologia pode simplificar drasticamente a gestão financeira. Minha recomendação é usar sistemas que integrem contabilidade, fluxo de caixa e DRE. Algumas opções testadas:
- Conta Azul: plataforma brasileira com módulo específico para terceiro setor. Permite emitir notas fiscais, controlar contas a pagar/receber e gerar DRE automaticamente.
- Omie: sistema completo com integração bancária e relatórios gerenciais. Oferece 30 dias grátis.
- QuickBooks (versão sem fins lucrativos): internacional, mas com funcionalidades robustas para OSCs grandes.
- Planilhas Google + AppSheet: para OSCs em estágio inicial, uma planilha bem desenhada combinada com automatizações simples já faz diferença.
O Instituto Germminar utiliza o Conta Azul para registrar todas as movimentações e gerar o DRE mensal. Isso nos permite ter a transparência necessária para manter o
Selo Doar A.
Comparação: Gestão Financeira Manual vs. Automatizada
| Critério | Gestão Manual | Gestão Automatizada |
|---|
| Tempo de fechamento mensal | 3-5 dias | 1-2 horas |
| Erros de lançamento | 15-20% | <2% |
| Custo mensal | Gratuito (apenas tempo) | R$ 50-200 (plano básico) |
| Geração de DRE | Demorada e propensa a erros | Automática e consistente |
| Auditabilidade | Baixa (papéis podem se perder) | Alta (trilha digital) |
Na minha experiência, a automação se paga em até 3 meses pelo tempo economizado e pela redução de erros que poderiam gerar multas ou perda de credibilidade.
Real-World Examples
Caso 1: Instituto Germminar
O Instituto Germminar, organização certificada com Selo Doar A em Anápolis/GO, implementou a gestão financeira com DRE mensal em 2024. Em dois anos, o superávit anual passou de R$ 5 mil para R$ 45 mil — permitindo expandir o projeto Germmina+ de 30 para 120 crianças atendidas. O segredo? Um contador especializado em terceiro setor e o uso de sistema integrado que gera o DRE automaticamente.
Caso 2: OSC Pequena de Goiânia
Uma OSC de Goiânia que atendia 50 crianças com atividades culturais estava à beira do fechamento. Após implementarmos um DRE básico, descobriram que 40% das doações estavam sendo consumidas por despesas bancárias e administrativas não previstas. Com os dados em mãos, renegociaram tarifas, cortaram gastos supérfluos e, em 6 meses, atingiram superávit.
Caso 3: OSC Média de São Paulo
Uma OSC com orçamento anual de R$ 2 milhões sofria para prestar contas aos 5 editais que financiavam seus projetos. Com a implantação de centros de custo por projeto e DREs segmentados, passaram a apresentar relatórios claros para cada financiador — o que resultou em 3 renovações de contrato e aumento de 30% nos recursos captados.
Perguntas Frequentes
Qual a Diferença entre DRE e Balanço Patrimonial?
O DRE mostra o resultado do exercício (receitas menos despesas) em um período, enquanto o Balanço Patrimonial apresenta a situação financeira da OSC em um determinado momento, incluindo ativos (bens e direitos) e passivos (obrigações). O DRE é dinâmico (fluxo), o balanço é estático (estoque). Ambos são complementares e necessários para uma visão completa da saúde financeira.
O DRE É Obrigatório para Todas as OSCs?
Sim, todas as OSCs devem elaborar o DRE para fins fiscais e de transparência. A legislação brasileira (Lei 13.019/2014 e NBC ITG 2002) exige que entidades sem fins lucrativos apresentem demonstrações contábeis, incluindo o DRE, especialmente quando captam recursos públicos ou privados. Mesmo OSCs muito pequenas que só recebem doações de pessoas físicas devem ter um DRE para prestar contas aos doadores e evitar problemas com a Receita Federal.
Como Garantir a Precisão do DRE?
Utilize sistemas de gestão financeira integrados, mantenha registros detalhados de cada movimentação (com notas fiscais e comprovantes), faça conciliação bancária mensal e contrate um contador especializado em terceiro setor. Auditorias periódicas, mesmo que internas, também ajudam a identificar erros antes que eles se tornem problemas maiores. No Instituto Germminar, fazemos uma auditoria trimestral voluntária com um profissional externo.
O Que Fazer em Caso de Déficit no DRE?
Primeiro, analise as causas: o déficit é pontual (ex: compra inesperada de equipamento) ou estrutural (despesas maiores que receitas todo mês)? Se estrutural, busque redução de custos (renegocie aluguel, otimize processos) e explore novas fontes de receita (novos editais, campanhas de doação recorrente, parcerias com empresas via leis de incentivo). Um déficit de até 10% da receita anual pode ser aceitável se coberto por reservas, mas déficits recorrentes indicam insustentabilidade.
Como o DRE Pode Ajudar na Captação de Recursos?
Um DRE claro e bem estruturado é um dos principais documentos que fundações, empresas e órgãos públicos analisam antes de aprovar um financiamento. Ele demonstra que sua OSC tem governança financeira, sabe gerenciar recursos e é confiável. Doadores individuais também se sentem mais seguros ao ver que sua contribuição será bem aplicada. Organizações com DRE público e auditado têm até 4 vezes mais chances de conseguir parcerias de longo prazo, segundo estudo da Harvard Business Review.
O ideal é mensal. Dessa forma, você acompanha a evolução financeira em tempo real, identifica problemas cedo e ajusta o planejamento. Para prestação de contas anuais (como exigido por editais), o DRE anual é obrigatório. O Instituto Germminar gera DRE mensal e um consolidado anual, sempre disponível para consulta pública no site.
Quais São os Maiores Desafios na Elaboração do DRE?
Os principais desafios incluem: falta de categorização padronizada das contas, dificuldade em separar receitas de projetos específicos, ausência de rateio de despesas indiretas e despreparo da equipe contábil. Muitas OSCs também subestimam o tempo necessário para a elaboração — o que leva a atrasos e erros. A solução é investir em capacitação da equipe e em sistemas que automatizem o processo.
O
Selo Doar A é uma certificação de transparência e gestão concedida a OSCs que comprovam boas práticas financeiras, incluindo a elaboração regular de DRE e sua disponibilização pública. Para obtê-lo, a OSC precisa demonstrar que suas demonstrações contábeis são auditadas e refletem fielmente a realidade. O DRE é um dos documentos centrais na avaliação. Manter o Selo Doar A exige que o DRE seja atualizado e aprovado anualmente.
Conclusão
A gestão financeira e o DRE são ferramentas indispensáveis para a sustentabilidade e transparência de uma OSC. Dominar esses processos não apenas garante a conformidade legal, mas fortalece a confiança de doadores, parceiros e beneficiários. Em um cenário onde mais de 45% das OSCs enfrentam dificuldades financeiras, estar entre as que fazem a lição de casa é um diferencial competitivo.
Comece hoje: abra uma conta jurídica, classifique suas movimentações, elabore seu primeiro DRE mensal e, se possível, busque a certificação
Selo Doar A. Sua OSC merece crescer com responsabilidade.
Para mais informações sobre gestão transparente no terceiro setor, visite nosso
guia completo sobre Terceiro Setor e Gestão Transparente de ONGs.
Sobre o Autor
Conselho Editorial Germminar é especialista em Educação, Terceiro Setor e Impacto Social no
Instituto Germminar, organização certificada com o Selo Doar A em Anápolis/GO, onde atua na implementação de práticas de gestão transparente e captação de recursos.
Leituras Recomendadas